Programa
de Educação

Programa
de Justiça

Material
didático-pedagógico
Publicações

Fórum
Artigos
Cartas
Outros sites
Contato





Defenda-se
Legislação
Dossiê
Vitórias











   

Dossiê Contra a Violência Racial em Santa Catarina

Apresentação
O estado de Santa Catarina e a África do Sul estão de frente, se olhando, no mapa múndi. São separados pelo Oceano Atlântico. Entretanto, esta descontinuidade territorial não lhes dispensa semelhança quando se trata de questões envolvendo a população negra.

Até 1994, ano da eleição de Nelson Mandela, a África do Sul vivia sob o regime baseado no Apartheid, onde toda a população não-branca (81%) era segregada. Não possuíam direito de voto. Em 1962, o governo racista criou leis destinadas ao confinamento da população negra, em território chamado de Bantustões, ou eufemisticamente denominados de "lares tribais". Estes campos de concentração representavam 13% do solo Sul-africano, aos negros era exigido passaportes para transitarem fora deles, pois eram considerados estrangeiros dentro de sua própria terra. O governo racista não reconhecia 68% da população, e se esforçava para impedir a visibilidade dos negros aos olhos do mundo.

Em Santa Catarina, os descendentes de africanos ainda vivem confinados à invisibilidade mesmo que as estatísticas oficiais apresentadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informem a presença de 12%, o que corresponde a 600 mil catarinenses negros.

Enquanto isso, a direção política empresarial e cultural finge não reconhecer a presença dos descendentes africanos neste território. Neste raciocínio construíram a seguinte equação: "Como não existem negros em Santa Catarina, não existem demandas governamentais; logo, não precisam de políticas públicas. Dentre elas, a Justiça." Seguindo esta lógica, os governantes de Santa Catarina criaram um "paraíso" para o exercício das práticas de intolerância racial. Aqui é um dos lugares do Brasil onde se pode ameaçar homens, mulheres e crianças pelo fato de serem negros.

Crentes na Justiça, as vítimas procuram todas as possíveis referências para serem amparadas. Percorrem as delegacias, gabinetes, jornais, secretarias e tribunais, num verdadeiro calvário. Os negros e negras vitimados são esperançosos, por conta da sua profunda humanidade. E perseguem a baliza das leis justas como expressão da civilidade na resolução dos conflitos.

Entretanto, as autoridades não acolhem devidamente as denúncias (quase suplicantes) das pessoas violadas na sua condição humana. Como na África do Sul (no período do apartheid), os negros de Santa Catarina não gozam da proteção do Estado; quando submetidos a situações de risco, sua cidadania não é permitida. Falta vontade política para algumas autoridades na operacionalização das políticas públicas de combate ao racismo e, para outras autoridades, a falta é de competência. Neste cenário de impunidade, os processos se amontoam nas gavetas, os delegados e comissários se esforçam para não tipificar os crimes raciais, conforme determina a lei. Por conta disso, os criminosos zombam das vítimas, aprofundando a humilhação e o sofrimento, e em muitas oportunidades a agressão se repete sem que ocorra qualquer manifestação por parte das autoridades responsáveis. Observa-se uma espécie de proteção solidária dos policiais junto aos racistas, facilitando-lhes a vida e, de certa forma, garantindo a continuidade das práticas criminosas.

A relação dos casos de racismo em Santa Catarina, onde o Estado abandona as vítimas, é surpreendentemente extensa. E o sentimento, diante desta constatação, é a indignação. Isto determinou, na evolução do acompanhamento dos processos, a coincidência de uma decisão simultânea, envolvendo o Núcleo de Estudos Negros e o gabinete do vereador Márcio de Souza a elaborarem o dossiê contra a violência racial em Santa Catarina. O objetivo maior deste documento é o de restabelecer a condição de dignidade às pessoas que tiveram suas almas e seus corpos mutilados pela fúria do racismo. É preciso cessar, com choro melancólico e desesperado daqueles que clamam por Justiça. Vai também, aqui, a homenagem na forma de luta a João da Cruz e Sousa, um dos primeiros combatentes dos direitos civis do povo negro, que há cem anos atrás, nesta mesma cidade, já emprestava seu punho, sua inteligência e emoção, às causas da humanidade.

 



Texto completo para download (Word - 366Kb)

 

nen@nen.org.br