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500 anos de luta e
resistência de um povo

Marcos Rodrigues da Silva (1)

"Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conversar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente." (Pe. Antonil, SJ, 1711)

A história das populações africanas e afro-brasileiras, aproximadamente 60% das pessoas no território brasileiro, é reconhecida por 500 anos de muita luta e resistência e pela auto-determinação. Na diáspora africana, esse povo se afirma como cultura marcada pela pluralidade étnica e diversidade religiosa, numa sociedade neoliberal onde apenas consegue reconhecer-se na sua realidade multicultural. O desafio está em dar uma passo adiante na afirmação da pluralidade étnica e na valorização da diversidade cultural, como parte integradora da identidade brasileira.
O que queremos? Apresentar um estudo crítico que possa mudar a política e a prática de compreender os conteúdos escolares, demostrando que, a partir do tema "negros", há um potencial de referenciais teóricos e práticos capazes de oferecer ao profissional em educação novos parâmetros de conhecimento e intervenção na sala de aula. Partindo, sempre, do entendimento de como os povos africanos - bantos, iorubas, sudaneses, nagôs, ketu, entre tantos - foram introduzidos no projeto de exploração da Empresa Colonial como mão-de-obra escrava por três longos séculos (XVI, XVII e XVIII).
As propostas de mudanças começam a surgir com a publicação da Lei da Terra (1850) e da Lei Áurea (1888), quando essa parcela significativa da população brasileira é desafiada a ser criativa para encontrar seus espaços nos diversos projetos sociais, econômicos e políticos que vão caracterizar o Brasil do século XX. Alguns temas são emergentes para que o profissional de educação perceba, com um olhar crítico, o quanto deve ser pertinente sua intervenção de mudar o olhar do alunado para afirmar sua identidade étnica e cidadã. Desde a ótica das populações afro-brasileiras, podemos afirmar o caráter de multirracialidade que forma a identidade deste país. Portanto, vamos às origens, com um olhar atento no futuro do aluno, do profissional em educação e da própria escola que queremos.

1. De escravo servil à preto (ladino) resistente

A literatura e a história tiveram sempre um ponto em comum ao registrar com o olhar de cidadão branco europeu o trabalhador negro (escravo). Concordamos com Emilia Viotti da Costa, quando afirma: "A idealização da escravidão no Brasil, o retrato do escravo fiel e do senhor benevolente e amigo do escravo, acabou por prevalecer na literatura e na história; muitos foram forçados pela sociedade escravista à defesa do sistema de que não julgava possível prescindir" (2).
O que constatamos, desde a chegada dos primeiros escravos, é que a resistência das populações negras escravas junto com os negros forros (libertos) foi permanente, culminando com o banzo e diversas insurreições, fugas e quilombos, entre as que mais se destacam na história da afirmação como povo negro. A estratégia de resistência rumo à liberdade foi forjada na aparente condição de conveniência com os moldes da Empresa Colonial, que impunha ao escravo o hábito de trabalhar, obedecer, e ter sua "satisfação" através da atitude de subserviência do seu senhor ou dos capatazes (3).
A estratégia de luta e de resistência foi aplicada nas diversas regiões onde estavam concentradas as populações negras escravas, conforme podemos constatar nos registros policiais da época ou nos sermões dos padres Jorge Benci, Vieira e que verbalizam aquilo que, atentos, registravam dos movimentos dos negros nas fazendas ou nos engenhos.
Este movimento coletivo contra a Empresa Colonial deflagrou fatos históricos da resistência promovida pelas populações africanas e afro-brasileiras nos séculos XVIII e XIX. Fatos esses que podem ser localizados próximos ou dentro das cidades na Bahia, palco de uma luta em que, na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, escravos e negros forros tomaram as ruas da capital e durante algumas horas travaram um combate armado contra soldados e civis. Tais negros eram de origem muçulmana e jamais aceitaram ser tratados na condição de escravos. Na época, esse fato teve repercussão nacional, tanto na imprensa escrita como no parlamento. Esta luta da resistência negra na diáspora africana ficou conhecida como a "Revolta dos Malês" (4). Alencastro registra que o Rio de Janeiro, sede do Império, em 1850 vai ter em torno de 206 mil habitantes, sendo que 79 mil eram negros cativos, o que corresponde a 38% do total da população.
Desde então, o temor contra qualquer tipo de concentração de negros passou a ser motivo para legitimar a vigilância da polícia. Outras localidades do território brasileiro convivem com experiências do mesmo gênero. No Maranhão, acontece o movimento de independência dos escravos; no Rio de Janeiro, a formação de diversos quilombos que, muitas vezes, realizam confrontos nas proximidades da sede da Província (por exemplo: o movimento Catumbi); em Recife, encontramos registros de grandes movimentos da resistência negra, neste período oitocentista, com inspiração nos movimentos quilombolas que já haviam ocorrido na segunda metade do século XVII (Quilombo dos Palmares - 1630 a 1693); em Sergipe, houve uma sistemática ação do exército e da polícia contra os quilombos, de 1867 até 1870, conforme relatos; nas regiões que compreendem a área amazônica (Amazônia Legal) ocorreram perseguições e muitas mortes de negros aquilombados, promotores de pequenos embriões de sociedades alternativas ao modelo colonial escravista português.

2. Genealogia do racismo anti-negro no Brasil (5)

Nas duas últimas décadas do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, foi construída uma ideologia perversa, que atingiu diretamente a população afro-brasileira. Está colocada a questão: quem é o brasileiro? E quem é o civilizado, capaz de integrar a elite nacional, de acordo com a concepção européia de uma sociedade apta para novos processos?
As imagens fotográficas revelam a crítica da identidade nacional, que estava presente nas formas sociais no final do século passado. Estas imagens pretendem revelar que
"o continente europeu aparece retratado a partir de várias cidades, com cavaleiros bem vestidos, damas e senhores de braços dados, bem comportados; na África, o que mais se vê são animais de grande porte com alguns homens (todos segurando tambores e batutas) e na América uma grande luta entre indígenas". (Schwarcz, 1996)
A ideologia imposta nesta virada de século procura afirmar a compreensão do "civilizado" com uma possível busca da identidade da população brasileira. A abolição da escravatura (1888) e o começo de um Estado republicano (1889) são elementos significativos para justificar a necessidade de um determinismo que visa a definir a identidade racial do ser brasileiro. Ou seja, responder a questão: "quem é o brasileiro?"
Não faltaram aqueles viajantes que vieram observar as novidades destes habitantes e emitiram opiniões que serão determinantes para a visão racistas das lideranças capitalistas européias e norte-americanas sobre a identidade brasileira. Por exemplo, Gobineau, que reconhece nos brasileiros figuras parecidas com "macacos". Nina Rodrigues reconhece que a sociedade brasileira é fruto de uma grande relação de miscigenação étnica. É um "laboratório racial" que concorre para a degeneração total (6). Esta e outras tantas opiniões vão favorecer o crescimento das teses eugênias com acentuação na formação biológica da população nos anos 20, 30 e 40 do século XX.
As teses eugênias estão fundadas em bases morais que buscam justificar o caráter de fazer justiça com aquelas etnias (imigrantes europeus) que têm a responsabilidade de purificar a racialidade do Brasil degenerado. E, ainda, de proporcionar que o país assuma sua potencialidade de uma nação capaz de competir com as demais nações no mercado mundial. Com este possível ajuste racial, estava-se acelerando o processo do pleno desenvolvimento, a propaganda populista da indústria como passaporte para a autodeterminação de um povo junto ao mercado capitalista.
O discurso das oligarquias representantes do projeto de desenvolvimento capitalista naquele período coloca-se contrário ao processo de segregação do negro e opta pela integração, que deve ser dirigida com uma criteriosa política de educação do indivíduo (negro, pardo, mulato), visando à sua inserção no mercado do trabalho. É importante que esse "novo sujeito brasileiro" tenha "boa aparência". Isto é, assimilação dos estereótipos da sociedade branca como a única referência aos critérios de introdução da pessoa no mercado de trabalho. Obviamente, para a população negra não foram oferecidas as mesmas oportunidades no acesso do conhecimento e no mercado do trabalho, como se fez aos brancos e mestiços assimilados.
Oliveira Vianna e Afonso Pacheco apresentam uma proposta de "sistema de cotas" ao ingresso de asiáticos e africanos, externando a preocupação interna da hegemonia do poder e do pensamento racista branco sobre uma massa de afro-brasileiros (pretos/pardos/mulatos) que já ameaçavam assumir os espaços abertos no mundo do trabalho. Esta ameaça acontecia pelo surgimento da Imprensa Negra que, por aquela época, tinha nas suas publicações um conteúdo de valorização do ser negro através de palavras que ressaltava a auto-estima do afro-brasileiro, como comunidade, gente negra, gente de cor.

3. As décadas de 80 e 90: afirmação da diferença, reconhecimento da identidade afro-brasileira

"Coloca-se então uma questão crucial: se a cultura negra é hoje visível, tolerada, 'respeitada' e integrada nos símbolos constitutivos da cultura nacional, onde ficam então os homens e as mulheres negras, produtores dessa cultura?" (Munanga, 1996)

A questão colocada por Munanga é provocante e desafiadora para todos aqueles que, de forma crítica e comprometida com as lutas de resistência do negro brasileiro, almejam a verdadeira realização dessas populações. A leitura crítica destes 500 anos do encontro das culturas européias com as culturas indígenas e africanas na diáspora deve ter propósitos transformadores que possibilitem a afirmação de direitos e deveres iguais, e reconhecimento da pluralidade étnica que marca a identidade da população brasileira.
Mas o que podemos constatar é que a "invisibilidade do negro" faz parte do cotidiano das estruturas e das relações de poder que dão legitimidade a uma minoria (elite) que controla o capital lucrativo brasileiro. A comunidade negra e os movimentos negros organizados nos anos 80 tiveram na figura do líder Zumbi dos Palmares a formulação de uma mística revolucionária que proporcionou um grande movimento de massa, em que homens e mulheres negras, mulatos e mestiços iniciam uma trajetória do que se denominou afirmação da auto-estima e de sua afro-descendência. Mesmo assim, temos que reconhecer as habilidades da ideologia neoliberal em manipular esse discurso revolucionário (Silva, 1976; Cardoso, 1996)
Este retorno às origens por homens e mulheres negras passa por caminhos, cada vez mais, carregados de significados simbólicos, míticos, marcados pela tradição oral e dos ancestrais. São territórios para alguns totalmente novos. Para outros, no entanto, é um retomar caminhadas já percorridas, revelando-se desatentos a valores que ali estavam registrados da história do povo negro. Esta identidade negra aparece nos grupos de Afoxés, que estavam proibidos, até o final dos anos 70, de saírem às ruas porque as suas cantorias foram rotuladas como subversivas à ordem estabelecida. Estes grupos só tiveram permissão no processo da "abertura política". As Congadas e os Catumbis sofreram sempre a proibição de participar das cerimônias litúrgicas oficiais na Igreja Católica por serem considerados mundanos e salientes nas expressões das danças e das letras dos seus hinos.
Nos espaços da religiosidade africana, valorizam-se as tradições das religiões dos ancestrais africanos (candomblé - nagô-ketu-gegê), que conservaram na oralidade um valioso arquivo da memória daqueles que aqui chegaram e lutaram pela liberdade.
Certamente, podemos detectar algumas questões que merecem nossa atenção e a busca de respostas na superação dos impasses presentes:
- Primeiro, é que vivemos um momento em que o discurso da democracia procura eliminar quaisquer limitações nas relações entre as pessoas e as próprias instituições representativas da sociedade; temos de estar atentos de que, neste mesmo cenário, ficam mais explícitos os conflitos raciais e étnicos;
- Segundo, é o aprofundamento das desigualdades econômicas que são geradas pelas políticas neoliberais, forçando um confronto de um grupo mínimo de privilegiados contra uma massa de excluídos e miseráveis. A estes, rotulados como "minorias excluídas", são negados o direito à mobilidade e à participação na redistribuição dos bens produzidos. É o racismo estrutural ganhando mais força sobre indivíduos e grupos afro-brasileiros, reforçando aquilo que Foucault já denominava de "bio-política" (disciplinação do corpo social);
- Terceiro, é o crescimento dos grupos xenófobos e racistas, que colocam na ordem do dia o debate sobre raça, natureza da identidade racial, lógica das categorias raciais. São debates que têm um sentido direto de retomada do genocídio contra as populações negras e contra todas aquelas consideradas estorvo para essas "minorias brancas".
Os atuais grupos, as comunidades e as organizações não-governamentais negras brasileiras têm encontrado saídas alternativas de atuar diante das demandas que envolvem a luta contra o preconceito, a discriminação e o racismo. Há formas diversas de intervir no cotidiano das reivindicações sociais e nos processos de transformação dos mecanismos que vão contra a lógica de viver da comunidade negra (representada por 60% do total da população brasileira).
Neste momento, acontece uma centralização de todas as iniciativas na afirmação das relações de parentesco, filiação e identidade com as culturas africanas, procurando reconhecer sua história, laços culturais e religiosos e os vínculos dos negros brasileiros com os seus descendentes na diáspora africana.

Para Concluir

Os "festejos do quinto centenário" acontecem a partir de um modelo de escola que se configura como o espaço privilegiado de aprendizado do racismo, com um conteúdo eurocêntrico do currículo escolar, onde imperam comportamentos diferenciados do professorado diante de crianças negras e brancas. Acontecem, ainda, abordagens e estereótipos em que está determinada a supervalorização do ser branco, como superioridade biológica, e ao povo negro é atribuída a desvalorização através de papéis na maioria das vezes medíocres e secundários. Temos de reconhecer que estamos num país onde os donos do poder são descendentes dos ex-escravizadores, o que os legitima na prática de racismo contra os negros. A criança negra sofre a inculcação de recalques e bloqueios nas suas potencialidades, resultando na negação de sua identidade racial.
Silva e Hasenbalg (1992, p. 90), ao analisarem os primeiros dados do IBGE, no início da década de 90, referentes à realidade dos afro-brasileiros e à educação no Ensino Fundamental, constatam que: "a) nunca entraram na escola, aos 7 anos de idade, 54% das crianças pretas, 55,6% das pardas e 39,2% das brancas; aos 10 anos, 20,7% das pretas, 20,3% das pardas e 6,8% das brancas; aos 14, 15,5% dos adolescentes pretos, 13,9% dos pardos e 5% dos brancos; b) freqüentam a escola, aos 7 anos, 44,6% das crianças pretas, 43,6% das pardas e 60,5% das brancas; aos 10, 76,5% das pretas, 75,7% das pardas e 90,8% das brancas; aos 14, 62,5% dos adolescentes pretos, 64,4% dos pardos e 71,7% dos brancos; c) deixaram os bancos escolares, aos 9 anos de idade, 3,09% das crianças pretas, 2,9% das pardas e 1,8% das brancas; aos 14, 22% dos adolescentes negros, 21,7% dos pardos e 21,3% dos brancos."
Estes dados são completados com os índices referentes aos adultos: "De jovens adultos entre 20 e 14 anos, 37,5% dos pretos têm de 1 a 4 anos de escolaridade, assim como 37,1% dos pardos, enquanto 28,5% dos brancos têm entre 9 e 11 anos. No que diz respeito a 12 anos e mais de estudos, o que abrange o nível universitário, 1,6 % dos pretos, 2,8% dos pardos e 13,6% dos brancos o atingiram".
O que verificamos nestes últimos anos é o crescimento desses índices e o sucateamento sistemático das políticas educacionais em todos os níveis da rede escolar. As políticas de educação no projeto neoliberal fortalecem o crescimento das escolas privadas. Estas, por sua vez, buscam exclusivamente o lucro. Conclusão: as populações negras serão as mais afetada nesta política de exclusão.
As saídas alternativas estão sendo operacionalizadas por setores do Movimento Negro, Movimento Sindical (timidamente) e por Organizações Não-Governamentais, com a aplicação de Programas de Ensino que privilegiam as populações negras. Outra iniciativa que vem tendo um resultado eficaz na luta contra o racismo anti-negro é o monitoramento dos livros didáticos, manuais escolares e programas educativos que são produzidos e distribuídos pelos organismos de governo. Também já se encontram à disposição das secretarias de educação (estaduais e municipais) propostas de programas permanentes de treinamento de professores e educadores que os habilitem a ter um conteúdo e referências teóricas capazes de abordar o tema da diversidade racial, identificar as práticas discriminatórias presentes nas escolas e os impactos destas na evasão escolar e repetência das crianças, adolescentes e jovens negros.
Na luta pela superação do analfabetismo em nível nacional, os afro-brasileiros surgem em maior escala. Programas de emergência para eliminar essa ausência do conhecimento básico estão sendo implementados. Fundos econômicos estão sendo captados no sentido de conceder bolsas remuneradas para adolescentes e jovens para que, com uma renda mínima, retornem aos estudos e concluam o 1o e o 2o graus. Mas, um desafio maior fica para todos: o reconhecimento de que a mulher e o homem são partes fundamentais na construção do conhecimento e da identidade deste país.
Aqui fica uma agenda para ser inserida nos conteúdos didático-pedagógicos, dentro de uma política de valorização da multirracialidade que identifica este país.

Notas

1. Sociólogo e Teólogo. Membro do Convênio Brasil/Portugal - CAPES/ICCTI/UFSC. Doutorando em Sociologia Econômica das Organizações, Universidade Técnica de Lisboa - UTL/ISEG - Lisboa, Portugal.E-mail: silva@ilhadamagia.com.br

2. VIOTTI, Emilia da Costa, Da senzala à colônia, São Paulo, 1986.

3. A conjugação entre os mandos do Senhor, dos capatazes, com a legitimidade do discurso religioso, podemos verificar na comparação que o Pe. Vieira faz dos sofrimentos dos escravos aos sofrimentos de Jesus Cristo: "Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado, porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na cruz, e em toda a sua paixão. A cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o ceptro do escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel, a paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo".(Ver: BOSI, Alfredo, Vieira ou a cruz da desigualdade, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, nº 25, p. 28-49, outubro de 1989).

4. Os estudos de João José Reis, em Rebelião Escrava no Brasil, a história do levante dos malês (1835), indicam algo importante para pensar a importância do negro na sociedade brasileira no período oitocentista. O autor aponta dados estimativos da população de Salvador: "Em 1835 havia 27.500 escravos (42% da população) e 38.800 livres e libertos (58%). Os brasileiros de cor, nascidos livres ou ex-escravos, e os africanos libertos eram em número de 19.500 pessoas, 29,8% dos habitantes da cidade. Desta forma, se os escravos eram menos da metade da população, a soma de todos os negros-mestiços, fossem escravos ou não, representava uma significativa maioria de 71,8%. Os 18.500 brancos constituíam a minoria racial de Salvador (28,8%)".

5. Michel Foucault assinala que os governos possuem "tecnologias disciplinares". Assim, explica que: " As tecnologias poderiam se chamar de "tecnologias anátomo-políticas" (disciplinação do corpo) e "bio-políticas" (disciplinação do corpo social). As disciplinas anátomo-políticas do corpo humano consistem em vigiar, instruir, utilizar e castigar. E disciplinas bio-políticas da espécie humana, ou seja controles sobre nascimentos, mortes, produção, enfermidades. (Cfr. Pey, 1995)

6. Segundo Nina Rodrigues: "A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravidão, por maiores que se revelem os generosos exageros dos seus turiferários, há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. Na trilogia do clima intertropical inóspito aos brancos, que flagela grande extensão do país; do negro que quase não se civiliza; do português rotineiro e improgressista, duas circunstâncias conferem ao segundo saliente preeminência: a mão forte contra o branco, que lhe empresta o clima tropical, as vastas proporções do mestiçamento que, entregando o país aos mestiços, acabarão privando-o, por longo prazo pelo menos, da direção suprema da raça banca. (RODRIGUES, 1988,p.7)




 

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