Programa
de Educação

Programa
de Justiça

Material
didático-pedagógico
Publicações

Fórum
Artigos
Cartas
Outros sites
Contato





Defenda-se
Legislação
Dossiê
Vitórias











   

Artigos

Documento apresentado
na Plenária Geral da
III Conferência Mundial Contra o Racismo

João Carlos Nogueira, sociólogo, Coordenador Geral do Núcleo de Estudos Negros (NEN),
Diretor do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (INSPIR).

Os quatro séculos de tráfico transatlântico de seres humanos em condições de escravos são seguramente uma das formas mais cruéis e desumanas desenvolvidas pela civilização para garantir poder, riquezas e perpetuar valores de superioridade.
Dos 24 milhões de homens e mulheres negros traficados entres os séculos XV e XIX, 50% foram destinados à América do Sul. Entre estes, 40% para o Brasil; 40% para a América Central e 10% para a América do Norte.

Não queremos deixar dúvidas de que a escravidão, o tráfico e o colonialismo são crimes lesa-humanidade.
A ONU determinou a realização de três Conferências Mundiais de Combate ao Racismo e às Discriminações. Estamos em processo de encerramento da terceira, aqui em Durban, África do Sul. Lamentavelmente, permanecem fortes resistências quanto ao reconhecimento das reparações aos milhões de vítimas do genocídio e assassinatos praticados contra negros e os povos indígenas.

Os países e blocos que se pronunciam hoje contra as propostas de políticas publicas, por exemplo, para os homossexuais e os povos indígenas, que se recusam a discutir o passado do tráfico e da escravidão, provavelmente serão os mesmos que se recusarão a reconhecer no futuro o nosso presente.
Quero lembrar que, quando nos referimos ao passado, entre os séculos XV e XIX, estamos falando de nossos antepassados, que nos fizeram vivos aqui no presente.
No Brasil, representamos 80 milhões de mulheres, crianças e homens negros, centenas de organizações que lutam contra o racismo e as discriminações raciais e que seguramente continuarão buscando as reparações e exigindo a implementação de políticas afirmativas.

A má qualidade de vida da população negra no Brasil está diretamente conectada com o racismo que bloqueia o livre desenvolvimento dos indivíduos. A pobreza e a miséria têm cor e estão determinadas pelo pertencimento ao grupo negro. A desigualdade econômica e a má distribuição de renda têm suas bases fincadas no racismo e na discriminação racial.
Como exemplos dos efeitos desse fenômeno: uma criança negra tem 67% a mais de chances de morrer antes dos 5 anos que uma criança branca nas mesmas condições socioeconômicas. Na educação, a população negra tem, em média, metade da escolarização da população branca e nas universidades representa menos de 3% do total de alunos. No mercado de trabalho, os homens negros recebem em média 1/3 a menos do que os homens brancos e a mulheres negras em qualquer situação recebem menos que homens e mulheres brancas e homens negros.

Estamos certos de que o documento final dessa III Conferência ainda não refletirá nossas histórias de luta e os propósitos das nossas organizações. Porem, será um instrumento pelo qual sempre estaremos mobilizados.
Entendemos que os países aqui reunidos devem declarar e se comprometer a eliminar o padrão de humanidade estabelecido ao longo da história - que culminou com os grandes crimes já citados e que continua a matar indivíduos e violar seus direitos humanos fundamentais - qual seja, a ideologia racista que qualifica indevidamente de ser humano o ser branco, masculino e heterossexual.
Esta III Conferência deve se pronunciar definitivamente contra o racismo, as discriminações e as intolerâncias. Deve também declarar um conjunto de orientações que se traduzam em políticas e novas práticas sociais e humanas.
Entendemos, Senhor Presidente, que deve ser este o propósito de cada um dos países-membros do sistema ONU e das delegações aqui presentes.

África do Sul, Durban - 7 de Setembro de 2001

Leia também:
500 anos de luta e
resistência de um povo

por Marcos Rodrigues da Silva




 

nen@nen.org.br